A cada ano que retorno para rever os familiares surgem algumas perguntas: valeu a pena me afastar dos meus pais? No passado, com a experiência de hoje, teria coragem de fazer a mesma coisa? Encontrei o que procurava? Realizei os sonhos? São perguntas difíceis de responder, porque cada atitude tomada é feita a partir dos elementos cognitivos que temos. De uma coisa tenho certeza: é ruim não conviver com os pais, se temos uma relação saudável.
Reencontrar papai é uma bênção, todavia é
impossível recuperar os 28 anos distante de sua presença física. Neste período
aconteceram coisas comigo e com ele, que não acompanhamos, e por mais que
contemos, pormenorizadamente, é difícil alcançar a dimensão. Por isso, as
relações devem ser intensas, para ao menos se tentar preencher as lacunas abertas
pelos anos.
Papai, como dizem no Nordeste, possui o calete bom,
e antes que alguém diga que não sabe o que é, calete significa (compleição
física, constituição robusta, qualidade, categoria) está no dicionário.
Normalmente, as pessoas dizem essa palavra em relação a não ter cabelo branco,
por isto bem conservado. Papai é destes que tem pouco cabelo branco, contudo em
cada fio pintado pela tinta dos anos, percebo o acúmulo de experiência, de
aprendizado, acompanhados pela preocupação para criar uma família numerosa.
As carcarquilhas do seu rosto trazem as marcas do
sol causticante que lhe roubou muito suor, em alguns anos sequestrou a
plantação e em outros impediu uma colheita farta, mas quando foi equilibrado
proporcionou uma produção generosa. Os homens do campo são castigados pelo
clima, afinal todo floricultor terá as mãos cheirosas, como toda pessoa
queimada pelo sol trará as rugas na pele. Agradeço a papai, o pai que foi e tem
sido. Espero que ele desculpe as minhas falhas e ausências, porque cobranças eu
não tenho direito de fazê-las a quem fez o possível para que eu tivesse o
necessário.


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