Abaixo segue um artigo escrito por Maria Clara de Freitas Pereira e José Edilson de Amorim
No primeiro
capítulo (Lázaro), já há indícios interessantes na segunda e terceira
estrofe do que nos espera:
A poesia
contou-me/ Uma história detalhada./ Aconselhou-me baixinho:/ “Escrever é empreitada/
De pensamento profundo;/ De letra bem trabalhada.// Tenha clareza na escrita/
Para construir seu nome./ Capriche nos argumentos,/ Esqueça um pouco, retome./
Trate o cordel com carinho,/ Não lhe deixo morrer de fome.” (NASCIMENTO, 2023,
p. 9-10)
Na
Antiguidade, era comum invocar as musas para se fazer poesia, no cordel é
habitual pedir o auxílio de Deus, mas, no caso em questão, o auxiliar é a
própria poesia. Além disso, é uma poesia que considera a tradição escrita, o
que podemos notar a partir de “escrever é uma empreitada”, “letra bem
trabalhada”, “clareza na escrita”. Os poetas de bancada costumam associar
aspectos da escrita e da oralidade ao se dirigirem ao público no início de seus
textos. Segundo Márcia Abreu (1997, S.I), eles abarcam as duas possibilidades
de recepção da literatura de cordel, então no mundo do cordel “escrever e
falar, ler e ouvir” deixam de ser recepções distintas para serem equivalentes.
Todavia, nesse primeiro momento, não há uma menção direta à oralidade; em vez
disso, há uma ênfase no trabalho de escrita do cordelista, que entra na
“empreitada de pensamento profundo” da poesia, precisando caprichar nos
argumentos, esquecer e retomar, o que expressa de maneira mais clara o trabalho
que esses artistas sempre tiveram ao mesmo tempo que mantém a ideia de uma
entidade inspiradora.
Essa poesia,
então, revela os personagens ao poeta. Assim, conhecemos Lázaro, psicólogo
paulista, que “afinou talento com engenho cerebral”, de modo que alcançou
excelência na profissão. Ele montou um consultório, ganhou muito dinheiro,
conseguiu ficar famoso e até atendeu ao governador (p. 10-12). O capítulo 2 (Alice),
conta como ele conheceu sua namorada na faculdade e, num “ímpeto juvenil”,
casaram-se. Alice é descrita como moça, meiga e sonhadora, iria formar-se
historiadora e, com o desejo de mudar o mundo, professora, porém esses planos
são frustrados por uma gravidez inesperada (p. 14).
Nesse
contexto, ela começa a ser oprimida pelo marido, que é descrito como leviano,
egoísta, dominador, desumano, além disso, por pagar as contas “se julgava
suserano”. Há um fato interessante nisso: tradicionalmente, os protagonistas
masculinos apresentam uma caracterização oposta a essa. Para Abreu (1997, S.I),
eles são “valentes, honestos, inteligentes, justos e fiéis às suas amadas”;
como não há tanta menção ao físico, o aspecto fundamental é o caráter, mas
nesse caso Lázaro não é um homem benevolente.
Sua misoginia
e machismo, ao insistir que Alice esquecesse de vez a vida profissional,
concorriam para “sepultar o jovem dos tempos da faculdade” (p. 16). É dito que
houve abusos, pressão psicológica, ameaças, coações mais ousadas, inexistência
de afagos e comportamentos hostis. É interessante lembrar que os vilões também
são descritos a partir de atributos morais e, em muitos casos, a característica
decisiva para o homem mau é a riqueza, “ser muito rico já é um indício de mau
comportamento, deixando clara a relação estabelecida entre ser ‘rico’ e ser
‘malvado de profissão’” (Abreu, 1997, S.I). Para Lázaro, “o seu deus era o
dinheiro”. Uma das particularidades desse texto está aqui: a caracterização
tradicional de um vilão e o protagonismo encontram-se em Lázaro. Em meio ao
choro e à dor, Alice foge, abdicando de seu filho, Lucas.
No capítulo 3
(Lucas), tomamos conhecimento que Lázaro vinga-se de Alice ao tentar
fazer com que o filho esquecesse a mãe. O menino, aos seis anos, adoeceu e em
pouco tempo morreu de câncer, o que gerou revolta. O pai diz ao médico: “Se
Lucas perdeu a vida,/ Javé também faleceu./ Jesus não ressuscitou./ Aliás,
sequer nasceu./ A alma é uma invenção,/ Segundo diz todo ateu.”, o que
demonstra sua desesperança.
Mesmo assim,
no capítulo seguinte (As ruas), ele questiona esse destino a Deus e
encontra “o seu fundo do poço”. A sua mansão no Morumbi tinha uma “pirâmide de
tristeza”, seu jardim, varanda e piscina perderam a graça, então ele começa a
vagar pelas ruas. Apesar da tentativa de
ajuda de empregados, amigos e conhecidos, muitos não se importaram e fingiam
não vê-lo. Lázaro:
Abandonado
de si,/ Imerso em sua amargura./ Uma inquietação mental/ Desembocou na ruptura/
Com a vida luxuosa./ Consolidou-se a fratura.// Conheceu, da mendicância,/ A
realidade crua./ Provou do fel do desprezo/ Que desagrada e tumultua./ Três
meses depois estava em situação de rua (NASCIMENTO, 2023, p. 26).
Nesse sentido,
o dicionário Michaelis traz três significados para a palavra Lázaro, sendo um
deles figurativo. O primeiro é “indivíduo que tem lepra; leproso, morfético”; o
segundo, “indivíduo coberto de chagas ou pústulas”. Já no sentido conotativo,
“diz-se de ou indivíduo que vive à margem da sociedade; excluído, miserável,
pária”, sendo esse o estado do nosso personagem. Podemos lembrar-nos do pobre
leproso do Novo Testamento com mesmo nome (Lucas 16, 19-29), mas também do
Lázaro irmão de Marta e Maria, e ressuscitado por Jesus após quatro dias de
sepultamento (João 11, 11-44). Lázaro é o nome em português de Lazarus, que por
sua vez é uma latinização do grego Eleázaros (Λαζαρος).
No hebraico, El’azar (אלעזר),
El (אל) significa Deus e ezer (עזר) quer dizer ajuda, auxílio, socorro. No Antigo Testamento,
Eliezer (אֱלִיעֶזֶר)
– “O outro se chamava Eliezer, pois Moisés havia dito: ‘O Deus de meu pai veio
em meu socorro e livrou-me da espada do faraó’” (Êxodo 18, 4).
Nesse caminho,
temos indício de sofrimento, mas também de auxílio. Nas ruas, Lázaro “Lembrava
de coisas cruéis:/ Doença, morte, sepulcro,/Separação e revés./ Nisso
chegou-lhe um cachorro,/ Deitou-se sobre os seus pés.” (Nascimento, 2023, p.
27, destaques nossos). A partir daqui, já que o personagem está nas ruas, não
há apenas as ilustrações para abrir e fechar os capítulos, mas fotografias de
São Paulo. Esta é a primeira, que aparece entre o capítulo 4 (As ruas) e
o capítulo 5 (Lázaro e Muska):
De acordo com
Marinho e Pinheiro (2012, p. 46), nos cordéis, “os desenhos acompanham os
conteúdos”. A foto em preto e branco, assim, transparece a solidão e o abandono
na selva de pedras, o que é reforçado pelo que parece ser um morador de rua.
Nota-se também que há uma ilustração por cima da fotografia, o que se repete em
todas as fotos; nesse caso, é um pássaro, o mesmo que aparece pela primeira vez
no capítulo 1 (Lázaro), mas na cor preta (figura 6).
O capítulo 5 (Muska
e Lázaro) mostra o início dessa amizade, entre o homem e o cachorro, um
golden retriever inteligente, e os percalços pelos quais passaram, como morar
na Cracolândia, ter rivais, escapar de revólver, esconder-se de inimigos e
enfrentar marginais. Um aspecto
interessante é como a sensação angustiante de viver numa grande metrópole é
expressa tanto por esses versos quanto pelas fotografias. Ayala (1997, p. 162)
defende que, mesmo em casos de adaptações de histórias europeias, o leitor
popular recebe as histórias “como se estivessem acontecendo em algum tempo no
Nordeste, apesar das referências a locais europeus contidas no texto. Esta
aclimatação não se faz apenas pela paisagem, mas principalmente pela
linguagem”. Mesmo assim, nessa história em específico, somos constantemente
lembrados de São Paulo, é a “cartografia social da cidade” dita acima por
Aderaldo Luciano. A abertura do capítulo é esta:
Quem quiser ler o resto do artigo
acesse:
https://revistas.editora.ufcg.edu.br/index.php/r15o/article/view/7229






















































