sexta-feira, 18 de setembro de 2026

CORDEL ENCANTA ALUNOS

 











A convite da professora Bianca estive na EMEF João Domingues Sampaio para falar a respeito do cordel. Foi um encontro maravilhoso, vi crianças interessadas por uma forma poética que vem conquistando o coração de milhares de leitoras e leitores por este Brasil afora. Os alunos estão estudando este gênero literário, porque a cada dia, o cordel se torna imprescindível na nossa educação.

Como é importante lançar sementes, porque cedo ou tarde se colherá os frutos. A professora Bianca me conheceu no seu tempo de estudante no Instituto Federal e me contou que na época disse: “quando eu for professora vou levar este homem na minha escola” e hoje, finalmente, segundo ela, realizou o sonho. Para o cordel encantar crianças primeiro deverá fascinar as professoras.

Sei o quanto o cordel pode transformar vidas e impelir crianças, jovens e adultos a se tornarem leitores. Essa literatura entra pelos ouvidos, passa pelo coração e conquista a alma para quem se abre ao mundo da poesia. Pela primeira vez pude falar sobre o meu mais recente livro APOROFOBIA OU O ÓDIO AO POBRE, lançado pela @pauluseditora a quem agradeço por acreditar nessa obra. De resto, desejo que o cordel continue conquistando pessoas para amar a cultura brasileira.

sábado, 12 de setembro de 2026

APOROFOBIA OU O ÓDIO AO POBRE

 




No penúltimo dia, voltei a @bienaldolivrosp e para minha surpresa encontrei no stand da @pauluseditora o meu novo livro ilustrado por @laertesilvino que ficou uma verdadeira obra de arte, para discutir um sentimento perverso de ódio que cresce a cada dia contra as pessoas, única e exclusivamente pelo fato delas serem pobres.

O ódio aos excluídos é tão absurdo que foi preciso o senador @fabianocontarato criar uma lei proibindo a construção hostil ao pobre, que além de se encontrar em situação vulnerável é odiado por essa condição. Ninguém quer e nem tem culpa por ser pobre. Odiar alguém por causa disso é desumano, por isso este meu livro trata dessa doença. Nós somos irmãos, precisamos caminhar juntos. O meu cordel e a minha poesia servem a luta pela justiça e fraternidade entre o gênero humano.

Esta obra visa discutir a gravidade desse ódio e conscientizar leitores e leitoras que o amor é a saída, que é melhor estender a mão amiga e pensar em alternativas para ajudá-la a superar a situação de miséria. É lamentável que se coloque mangueiras para gotejar água embaixo de marquises para as pessoas não se abrigarem, e se dividir um banco na praça ao meio, para um vulnerável não se deitar. Você que ainda vai a Bienal do livro de São Paulo, passe na Editora Paulus e adquira o seu exemplar, ainda dá tempo e ajude a vencer este ódio destruidor.

 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

APRESENTAÇÃO NO SESC NA BIENAL

 









Todos nós que fazemos um trabalho cultural, percebemos que à medida que o tempo passa, vamos crescendo como profissional e melhorando no desenvolvimento da nossa arte. Quando cheguei a São Paulo, há quase 20 anos, ninguém nem ouvia falar da presença do cordel na Bienal do livro de São Paulo, e agora, felizmente, além do Espaço Cordel e Repente da @imeph vemos que vários autores e autoras de cordel, são convidados para se apresentarem em diversos palcos desse grande evento.

Este ano tive a felicidade ser convidado pelo Sesc para ler cordéis, tendo em vista que existe uma demanda para isso, que o público consumidor de livros consome livros de cordel e o Sesc é este espaço que sempre abrigou a cultura brasileira. Me apresentei no Bibliosesc Praça das histórias um lugar por onde passou diversos escritores e escritoras falando do seu trabalho e da importância da literatura brasileira.

Na oportunidade mostrei, além de textos de minha autoria, O Romance do Pavão Misterioso, O menino dos bodinhos e a princesa interesseira, dois clássicos do cordel brasileiro. Foi uma apresentação cheia encanto e magia porque tive a possibilidade te convidar ao palco duas poetisas presentes @cleusasanto e @edimaria mulheres que fazem história com o cordel na Pauliceia Desvairada. Viva a literatura brasileira.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

ESPAÇO CORDEL E REPENTE NA BIENAL

 














Desde o ano de 2016 a @editoraimeph começou a participar da @bienaldolivrosp com um dos estandes mais bonitos e mais alegres desse evento. Com o nome CORDEL E REPENTE o local se tornou o espaço dos cordelistas dentro da Bienal, bem como uma referência para quem gosta de poesia e participa dessa festa literária. Neste local se abrigam poetas e escritores vindos de todo o Brasil, porque @lucindamazevedo sempre dá um jeitinho e acolher a todos que chegam para lançar um livro, fazer um show ou uma palestra. O local se tornou uma arena que a poesia desfila com leveza, encanta corações e eleva a alma.

As poetisas e os poetas cordelistas de São Paulo encontram o aconchego neste lugar e puderam mostrar suas obras para um público qualificado que frequenta uma Bienal do porte da de São Paulo. Participei de 4 edições e contemplei a importância e a pujança do cordel no meio da literatura brasileira. Percebi a ousadia de Lucinda Marques para participar duma festa literária que ao mesmo tempo é grandioso e exige um investimento de alto risco.

Cinco bienais depois, o Espaço Cordel Repente está consolidado e se tornou a casa do cordel brasileiro na Bienal. Isto revela que essa forma poética tem um grande potencial e precisa se expandir cada vez mais, para mostrar a sua força e relevância como patrimônio imaterial da cultura nacional. Viva o livro, viva o cordel.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

AUTOR DE CORDEL RECOMENDA COMPRA DE LIVROS

 


Tamara Klink pediu

Ao leitor para parar

De comprar o livro dela,

Mas eu vim lhe convidar

Para pesquisar os meus,

Escolher um e comprar.

 

Basta digitar meu nome

Para algum aparecer

Você pensa e dá o clique

Naquele que escolher

Aguardar em sua casa,

Chegou já comece a ler.

 

Vou ficar muito feliz

Contar com sua leitura

Para o mundo do cordel

Você dará abertura

Vai conhecer mais um pouco

De nossa literatura.

 

Pode comprar à vontade

Para ter conhecimento

Será um grande prazer

De lhe mostrar meu talento.

Na busca digite o nome

De Varneci Nascimento.

 

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

PARABÉNS, MAMÃE

  


Mamãe a senhora completa hoje 83 anos, sim porque vive no coração daqueles que lhe amam. O tempo passa veloz, se foram cinco anos e parece que foi ontem, a saudade segue forte, às vezes apertando, às vezes mais amena. Meu coração tem uma lacuna, que aprendi a preencher com as lembranças felizes que tenho da senhora. Quantas gargalhadas demos, os seus ditados que só quem é da Mirandela tem, e falava “té” quando a gente dizia uma besteira. Das tiradas interessantes, como quando falou que “Zé de Jonas aprendeu a dirigir antes de terem inventado o carro” e que o sobrinho “João de Néu começou a jogar na loteria antes do jogo existir”. Ou como da vez que eu disse a senhora, que papai me falou que sabia dançar, e me respondeu: “té, é mentira, porque ele pisou no meu pé dançando e até hoje, 60 anos depois, eu nunca sarei”.

Feliz aniversário aí no céu, celebre com Jesus de Nazaré, quando eu também for, a gente celebrará os atrasados. É ruim demais não ter mãe aqui fisicamente, mas o amor é uma força que nem a morte é capaz de destruir. Como tenho certeza de que está ao lado de Divino Mestre, peça pela saúde de sua filha Erivania, que desde o ano passado enfrenta uma barreira pesada e, de hospital a senhora entende. Parabéns, mamãe, por aqui seguimos escapando devagarinho, feito gás de botijão.

 

domingo, 16 de agosto de 2026

II ENCONTRO DE MULHERES CORDELISTAS EM SÃO PAULO

 





A presença do cordel em São Paulo é uma realidade que vivenciamos há muito tempo, mas durante muitos anos, contava apenas com a presença dos homens. Felizmente este quadro vem mudando pela potência poética das mulheres que começou com Benedita Delazari, seguida por Cleusa Santo e hoje é difícil nominar o número de mulheres que abraçou este ofício poético.

Várias mulheres estão espalhando a arte do cordel na Pauliceia Desvairada, de modo que, esse fazer poético vem sendo fortalecido se se tornando respeitado pelos leitores e leitoras. O cordel encontra lugar nos espaços educacionais e culturais, dentro a fora da capital paulista. Cleusa consegue envolver as pessoas com encantamento, naquilo que ela escolhe trabalhar e espalhar ao mundo.

Este encontro foi promovido pelo Poder do Conto e Viva cordel, numa ação de salvaguarda, em torno dessa forma poética secular, que encontra lugar no coração e mente das autoras e, se estende ao afeto das leitoras e leitores que acolhem essa arte com amor e torna possível a vida de quem escolhe a poesia, como caminho a ser trilhado.

Que venham outros encontros para tornar o cordel ainda mais visível, e mostrar que a pujança poética deste gênero literário se consolida, como uma força transformadora capaz de encantar quem toma contato com essa forma poética, porque como diz Cleusa Santo “o cordel só tem dois públicos: “aquele que o ama e aquele que ainda não o conhece”.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

CORDEL ATINGE NOVO PÚBLICO NA FLIPEI

 








Pelo segundo ano consecutivo tive a felicidade de participar da Flipei (Festa Literária Pirata das Editoras Independentes) um evento consagrado que celebra o livro e comercializa uma literatura forte e pujante, visando a inclusão de tantas vozes para a construção de um mundo igualitário, em que todos possam ter as mesmas oportunidades. A Flipei é um espaço democrático para que o autor, que muitas vezes não encontra condição em outros locais, possa se colocar como a voz de sua própria história.

A Literatura Brasileira segue revelando talentos por meio da autopublicação, pois as pessoas criam coragem para se expor através da palavra. Levar o cordel para um local tão diversificado é uma alegria, porque esse gênero literário se consolida cada vez mais como uma potência poética que tem o que dizer ao mundo, através dos seus autores e autoras que vem alcançando destaque significativo dentro do mercado editorial do país.

Pela segunda vez na Flipei, estive ao lado do Selo Pé no Chão, encabeçado pela poeta Maria Rosa Caldas que leva o seu trabalho literário e gráfico para outros espaços, ecoando a voz de outras mulheres que escrevem porque têm o que dizer ao mundo. Durante o evento estive ao lado da poetisa Genilda Silva, que há pouco tempo ingressou na senda do cordel e ganha asas escanchada no Pavão Misterioso. Outras vozes potentes do cordel se fizeram presente na Flipei: as poetas Lucineide Vieira, Graziela Barduco e Cléia Luh que expuseram o seu trabalho e encantaram os visitantes da feira. A presença feminina no cordel é um sinal de que esse gênero literário está cada vez mais representativo, porque como diz a poetisa Cleusa Santo que visitou o evento: “a mulher no cordel, não veio pra brincadeira”. Ainda recebemos a visita da poetisa Edimaria e dos poetas Moreira de Acopiara e Cacá Lopes.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

CORDELL NA FLIPEI

 A partir desta quarta-feira, 05/08 a 09/08/26 estarei na Flipei, uma feira potente que reúne várias editoras, autores, autoras para espalhar livros para todos os gostos. Participarei deste evento ao lado das cordelistas Maria Rosa, Genilda, Lu Vieira e Graziela Barduco. Prestigie o cordel brasileiro, uma poesia potente que há mais de cem anos encanta leitoras e leitores por todo o nosso país.

 




sexta-feira, 24 de julho de 2026

2. ALÉM DE MUSKA, ALGUNS PERSONAGENS E IMAGENS

 


Abaixo segue um artigo escrito por Maria Clara de Freitas Pereira e José Edilson de Amorim

 Aderaldo Luciano (2023), responsável pela produção editorial desse cordel, descreve a obra, no aviso ao leitor, como um poema em cordel que apresenta “a fragilidade humana diante do fracasso, as arestas psicológicas, quando a mente busca sua própria solução para o desespero e uma cartografia social da cidade, atormentada, ela mesma, por problemas aparentemente sem solução”. O texto é dividido em nove capítulos, todos intitulados; esses são intercalados pelas ilustrações de Leonardo Leal e fotografias de São Paulo. A capa já associa esses diferentes elementos, com uma fonte para o título que lembra revistas de super-heróis:

 

No primeiro capítulo (Lázaro), já há indícios interessantes na segunda e terceira estrofe do que nos espera:

 

A poesia contou-me/ Uma história detalhada./ Aconselhou-me baixinho:/ “Escrever é empreitada/ De pensamento profundo;/ De letra bem trabalhada.// Tenha clareza na escrita/ Para construir seu nome./ Capriche nos argumentos,/ Esqueça um pouco, retome./ Trate o cordel com carinho,/ Não lhe deixo morrer de fome.” (NASCIMENTO, 2023, p. 9-10)

 

Na Antiguidade, era comum invocar as musas para se fazer poesia, no cordel é habitual pedir o auxílio de Deus, mas, no caso em questão, o auxiliar é a própria poesia. Além disso, é uma poesia que considera a tradição escrita, o que podemos notar a partir de “escrever é uma empreitada”, “letra bem trabalhada”, “clareza na escrita”. Os poetas de bancada costumam associar aspectos da escrita e da oralidade ao se dirigirem ao público no início de seus textos. Segundo Márcia Abreu (1997, S.I), eles abarcam as duas possibilidades de recepção da literatura de cordel, então no mundo do cordel “escrever e falar, ler e ouvir” deixam de ser recepções distintas para serem equivalentes. Todavia, nesse primeiro momento, não há uma menção direta à oralidade; em vez disso, há uma ênfase no trabalho de escrita do cordelista, que entra na “empreitada de pensamento profundo” da poesia, precisando caprichar nos argumentos, esquecer e retomar, o que expressa de maneira mais clara o trabalho que esses artistas sempre tiveram ao mesmo tempo que mantém a ideia de uma entidade inspiradora.

Essa poesia, então, revela os personagens ao poeta. Assim, conhecemos Lázaro, psicólogo paulista, que “afinou talento com engenho cerebral”, de modo que alcançou excelência na profissão. Ele montou um consultório, ganhou muito dinheiro, conseguiu ficar famoso e até atendeu ao governador (p. 10-12). O capítulo 2 (Alice), conta como ele conheceu sua namorada na faculdade e, num “ímpeto juvenil”, casaram-se. Alice é descrita como moça, meiga e sonhadora, iria formar-se historiadora e, com o desejo de mudar o mundo, professora, porém esses planos são frustrados por uma gravidez inesperada (p. 14).

Nesse contexto, ela começa a ser oprimida pelo marido, que é descrito como leviano, egoísta, dominador, desumano, além disso, por pagar as contas “se julgava suserano”. Há um fato interessante nisso: tradicionalmente, os protagonistas masculinos apresentam uma caracterização oposta a essa. Para Abreu (1997, S.I), eles são “valentes, honestos, inteligentes, justos e fiéis às suas amadas”; como não há tanta menção ao físico, o aspecto fundamental é o caráter, mas nesse caso Lázaro não é um homem benevolente.

Sua misoginia e machismo, ao insistir que Alice esquecesse de vez a vida profissional, concorriam para “sepultar o jovem dos tempos da faculdade” (p. 16). É dito que houve abusos, pressão psicológica, ameaças, coações mais ousadas, inexistência de afagos e comportamentos hostis. É interessante lembrar que os vilões também são descritos a partir de atributos morais e, em muitos casos, a característica decisiva para o homem mau é a riqueza, “ser muito rico já é um indício de mau comportamento, deixando clara a relação estabelecida entre ser ‘rico’ e ser ‘malvado de profissão’” (Abreu, 1997, S.I). Para Lázaro, “o seu deus era o dinheiro”. Uma das particularidades desse texto está aqui: a caracterização tradicional de um vilão e o protagonismo encontram-se em Lázaro. Em meio ao choro e à dor, Alice foge, abdicando de seu filho, Lucas.

No capítulo 3 (Lucas), tomamos conhecimento que Lázaro vinga-se de Alice ao tentar fazer com que o filho esquecesse a mãe. O menino, aos seis anos, adoeceu e em pouco tempo morreu de câncer, o que gerou revolta. O pai diz ao médico: “Se Lucas perdeu a vida,/ Javé também faleceu./ Jesus não ressuscitou./ Aliás, sequer nasceu./ A alma é uma invenção,/ Segundo diz todo ateu.”, o que demonstra sua desesperança.

Mesmo assim, no capítulo seguinte (As ruas), ele questiona esse destino a Deus e encontra “o seu fundo do poço”. A sua mansão no Morumbi tinha uma “pirâmide de tristeza”, seu jardim, varanda e piscina perderam a graça, então ele começa a vagar pelas ruas.  Apesar da tentativa de ajuda de empregados, amigos e conhecidos, muitos não se importaram e fingiam não vê-lo. Lázaro:

 

Abandonado de si,/ Imerso em sua amargura./ Uma inquietação mental/ Desembocou na ruptura/ Com a vida luxuosa./ Consolidou-se a fratura.// Conheceu, da mendicância,/ A realidade crua./ Provou do fel do desprezo/ Que desagrada e tumultua./ Três meses depois estava em situação de rua (NASCIMENTO, 2023, p. 26).

 

Nesse sentido, o dicionário Michaelis traz três significados para a palavra Lázaro, sendo um deles figurativo. O primeiro é “indivíduo que tem lepra; leproso, morfético”; o segundo, “indivíduo coberto de chagas ou pústulas”. Já no sentido conotativo, “diz-se de ou indivíduo que vive à margem da sociedade; excluído, miserável, pária”, sendo esse o estado do nosso personagem. Podemos lembrar-nos do pobre leproso do Novo Testamento com mesmo nome (Lucas 16, 19-29), mas também do Lázaro irmão de Marta e Maria, e ressuscitado por Jesus após quatro dias de sepultamento (João 11, 11-44). Lázaro é o nome em português de Lazarus, que por sua vez é uma latinização do grego Eleázaros (Λαζαρος). No hebraico, El’azar (אלעזר), El (אל) significa Deus e ezer (עזר) quer dizer ajuda, auxílio, socorro. No Antigo Testamento, Eliezer (אֱלִיעֶזֶר) – “O outro se chamava Eliezer, pois Moisés havia dito: ‘O Deus de meu pai veio em meu socorro e livrou-me da espada do faraó’” (Êxodo 18, 4).

Nesse caminho, temos indício de sofrimento, mas também de auxílio. Nas ruas, Lázaro “Lembrava de coisas cruéis:/ Doença, morte, sepulcro,/Separação e revés./ Nisso chegou-lhe um cachorro,/ Deitou-se sobre os seus pés.” (Nascimento, 2023, p. 27, destaques nossos). A partir daqui, já que o personagem está nas ruas, não há apenas as ilustrações para abrir e fechar os capítulos, mas fotografias de São Paulo. Esta é a primeira, que aparece entre o capítulo 4 (As ruas) e o capítulo 5 (Lázaro e Muska):

 

De acordo com Marinho e Pinheiro (2012, p. 46), nos cordéis, “os desenhos acompanham os conteúdos”. A foto em preto e branco, assim, transparece a solidão e o abandono na selva de pedras, o que é reforçado pelo que parece ser um morador de rua. Nota-se também que há uma ilustração por cima da fotografia, o que se repete em todas as fotos; nesse caso, é um pássaro, o mesmo que aparece pela primeira vez no capítulo 1 (Lázaro), mas na cor preta (figura 6).

O capítulo 5 (Muska e Lázaro) mostra o início dessa amizade, entre o homem e o cachorro, um golden retriever inteligente, e os percalços pelos quais passaram, como morar na Cracolândia, ter rivais, escapar de revólver, esconder-se de inimigos e enfrentar marginais.  Um aspecto interessante é como a sensação angustiante de viver numa grande metrópole é expressa tanto por esses versos quanto pelas fotografias. Ayala (1997, p. 162) defende que, mesmo em casos de adaptações de histórias europeias, o leitor popular recebe as histórias “como se estivessem acontecendo em algum tempo no Nordeste, apesar das referências a locais europeus contidas no texto. Esta aclimatação não se faz apenas pela paisagem, mas principalmente pela linguagem”. Mesmo assim, nessa história em específico, somos constantemente lembrados de São Paulo, é a “cartografia social da cidade” dita acima por Aderaldo Luciano. A abertura do capítulo é esta:

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Quem quiser ler o resto do artigo acesse:

https://revistas.editora.ufcg.edu.br/index.php/r15o/article/view/7229

domingo, 12 de julho de 2026

SEMEANDO CORDEL

 








Quem decide viver de determinada arte, precisa se abrir para apreciar as demais artes para não se fechar apenas em seu mundo, pois o diálogo frequente irriga os rios de sua arte e pode tornar o seu jardim poético mais colorido. Um escritor deve frequentar o teatro, escutar música e ler outros autores para enriquecer seu vocabulário, e ter o que dizer as pessoas que investem em seu trabalho. No caso do cordel não basta apenas rimar, é necessário harmonizar para que se torne um poema cheio de encantamento e poesia. Rimar é a parte mais fácil, porém embelezar as estrofes com poesia, será o trabalho mais ardoroso a ser enfrentado.

Nestes 25 anos atuando como cordelista, percebo que a cada dia estou aprendendo algo sobre a cultura do cordel. A cada texto escrito, vem a seguinte pergunta: isto vai me conectar com as leitoras e leitores? É uma pergunta que nenhum autor tem a resposta, por isso que escrever é uma experimentação constante. Para nos conectarmos com as pessoas, um dos caminhos a seguir é o da emoção, pois ela vive a espreita e é o que realmente nos move, claro que se a emoção estiver desordenada, a razão dará o seu toque de equilíbrio.

Outra coisa que o capital fala muito é sobre a autoridade conquistada a respeito do que faz, mas esta espécie de “privilégio” será dada à medida que seus leitores forem reconhecendo seu trabalho e o tornando relevante. Muitos conquistam isto através de polêmicas, mas não sei quanto isso é bom para uma carreira. Baseado em minha experiência, digo a qualquer pessoa que está dando os passos iniciais em uma arte, que continue em frente, que semeie, mesmo que ninguém dê importância, porque não é pelo comportamento dos outros que você mudará o seu. Quem está convicto de uma coisa, basta a sua convicção, o resto é se lhe ajuda a crescer neste caminho de semeadura. Eu sigo plantando. Tenho colhido, perdido, irrigado, mas continuo semeando. Quem não desiste sairá da escassez para a fartura.