sexta-feira, 24 de julho de 2026

2. ALÉM DE MUSKA, ALGUNS PERSONAGENS E IMAGENS

 


Abaixo segue um artigo escrito por Maria Clara de Freitas Pereira e José Edilson de Amorim

 Aderaldo Luciano (2023), responsável pela produção editorial desse cordel, descreve a obra, no aviso ao leitor, como um poema em cordel que apresenta “a fragilidade humana diante do fracasso, as arestas psicológicas, quando a mente busca sua própria solução para o desespero e uma cartografia social da cidade, atormentada, ela mesma, por problemas aparentemente sem solução”. O texto é dividido em nove capítulos, todos intitulados; esses são intercalados pelas ilustrações de Leonardo Leal e fotografias de São Paulo. A capa já associa esses diferentes elementos, com uma fonte para o título que lembra revistas de super-heróis:

 

No primeiro capítulo (Lázaro), já há indícios interessantes na segunda e terceira estrofe do que nos espera:

 

A poesia contou-me/ Uma história detalhada./ Aconselhou-me baixinho:/ “Escrever é empreitada/ De pensamento profundo;/ De letra bem trabalhada.// Tenha clareza na escrita/ Para construir seu nome./ Capriche nos argumentos,/ Esqueça um pouco, retome./ Trate o cordel com carinho,/ Não lhe deixo morrer de fome.” (NASCIMENTO, 2023, p. 9-10)

 

Na Antiguidade, era comum invocar as musas para se fazer poesia, no cordel é habitual pedir o auxílio de Deus, mas, no caso em questão, o auxiliar é a própria poesia. Além disso, é uma poesia que considera a tradição escrita, o que podemos notar a partir de “escrever é uma empreitada”, “letra bem trabalhada”, “clareza na escrita”. Os poetas de bancada costumam associar aspectos da escrita e da oralidade ao se dirigirem ao público no início de seus textos. Segundo Márcia Abreu (1997, S.I), eles abarcam as duas possibilidades de recepção da literatura de cordel, então no mundo do cordel “escrever e falar, ler e ouvir” deixam de ser recepções distintas para serem equivalentes. Todavia, nesse primeiro momento, não há uma menção direta à oralidade; em vez disso, há uma ênfase no trabalho de escrita do cordelista, que entra na “empreitada de pensamento profundo” da poesia, precisando caprichar nos argumentos, esquecer e retomar, o que expressa de maneira mais clara o trabalho que esses artistas sempre tiveram ao mesmo tempo que mantém a ideia de uma entidade inspiradora.

Essa poesia, então, revela os personagens ao poeta. Assim, conhecemos Lázaro, psicólogo paulista, que “afinou talento com engenho cerebral”, de modo que alcançou excelência na profissão. Ele montou um consultório, ganhou muito dinheiro, conseguiu ficar famoso e até atendeu ao governador (p. 10-12). O capítulo 2 (Alice), conta como ele conheceu sua namorada na faculdade e, num “ímpeto juvenil”, casaram-se. Alice é descrita como moça, meiga e sonhadora, iria formar-se historiadora e, com o desejo de mudar o mundo, professora, porém esses planos são frustrados por uma gravidez inesperada (p. 14).

Nesse contexto, ela começa a ser oprimida pelo marido, que é descrito como leviano, egoísta, dominador, desumano, além disso, por pagar as contas “se julgava suserano”. Há um fato interessante nisso: tradicionalmente, os protagonistas masculinos apresentam uma caracterização oposta a essa. Para Abreu (1997, S.I), eles são “valentes, honestos, inteligentes, justos e fiéis às suas amadas”; como não há tanta menção ao físico, o aspecto fundamental é o caráter, mas nesse caso Lázaro não é um homem benevolente.

Sua misoginia e machismo, ao insistir que Alice esquecesse de vez a vida profissional, concorriam para “sepultar o jovem dos tempos da faculdade” (p. 16). É dito que houve abusos, pressão psicológica, ameaças, coações mais ousadas, inexistência de afagos e comportamentos hostis. É interessante lembrar que os vilões também são descritos a partir de atributos morais e, em muitos casos, a característica decisiva para o homem mau é a riqueza, “ser muito rico já é um indício de mau comportamento, deixando clara a relação estabelecida entre ser ‘rico’ e ser ‘malvado de profissão’” (Abreu, 1997, S.I). Para Lázaro, “o seu deus era o dinheiro”. Uma das particularidades desse texto está aqui: a caracterização tradicional de um vilão e o protagonismo encontram-se em Lázaro. Em meio ao choro e à dor, Alice foge, abdicando de seu filho, Lucas.

No capítulo 3 (Lucas), tomamos conhecimento que Lázaro vinga-se de Alice ao tentar fazer com que o filho esquecesse a mãe. O menino, aos seis anos, adoeceu e em pouco tempo morreu de câncer, o que gerou revolta. O pai diz ao médico: “Se Lucas perdeu a vida,/ Javé também faleceu./ Jesus não ressuscitou./ Aliás, sequer nasceu./ A alma é uma invenção,/ Segundo diz todo ateu.”, o que demonstra sua desesperança.

Mesmo assim, no capítulo seguinte (As ruas), ele questiona esse destino a Deus e encontra “o seu fundo do poço”. A sua mansão no Morumbi tinha uma “pirâmide de tristeza”, seu jardim, varanda e piscina perderam a graça, então ele começa a vagar pelas ruas.  Apesar da tentativa de ajuda de empregados, amigos e conhecidos, muitos não se importaram e fingiam não vê-lo. Lázaro:

 

Abandonado de si,/ Imerso em sua amargura./ Uma inquietação mental/ Desembocou na ruptura/ Com a vida luxuosa./ Consolidou-se a fratura.// Conheceu, da mendicância,/ A realidade crua./ Provou do fel do desprezo/ Que desagrada e tumultua./ Três meses depois estava em situação de rua (NASCIMENTO, 2023, p. 26).

 

Nesse sentido, o dicionário Michaelis traz três significados para a palavra Lázaro, sendo um deles figurativo. O primeiro é “indivíduo que tem lepra; leproso, morfético”; o segundo, “indivíduo coberto de chagas ou pústulas”. Já no sentido conotativo, “diz-se de ou indivíduo que vive à margem da sociedade; excluído, miserável, pária”, sendo esse o estado do nosso personagem. Podemos lembrar-nos do pobre leproso do Novo Testamento com mesmo nome (Lucas 16, 19-29), mas também do Lázaro irmão de Marta e Maria, e ressuscitado por Jesus após quatro dias de sepultamento (João 11, 11-44). Lázaro é o nome em português de Lazarus, que por sua vez é uma latinização do grego Eleázaros (Λαζαρος). No hebraico, El’azar (אלעזר), El (אל) significa Deus e ezer (עזר) quer dizer ajuda, auxílio, socorro. No Antigo Testamento, Eliezer (אֱלִיעֶזֶר) – “O outro se chamava Eliezer, pois Moisés havia dito: ‘O Deus de meu pai veio em meu socorro e livrou-me da espada do faraó’” (Êxodo 18, 4).

Nesse caminho, temos indício de sofrimento, mas também de auxílio. Nas ruas, Lázaro “Lembrava de coisas cruéis:/ Doença, morte, sepulcro,/Separação e revés./ Nisso chegou-lhe um cachorro,/ Deitou-se sobre os seus pés.” (Nascimento, 2023, p. 27, destaques nossos). A partir daqui, já que o personagem está nas ruas, não há apenas as ilustrações para abrir e fechar os capítulos, mas fotografias de São Paulo. Esta é a primeira, que aparece entre o capítulo 4 (As ruas) e o capítulo 5 (Lázaro e Muska):

 

De acordo com Marinho e Pinheiro (2012, p. 46), nos cordéis, “os desenhos acompanham os conteúdos”. A foto em preto e branco, assim, transparece a solidão e o abandono na selva de pedras, o que é reforçado pelo que parece ser um morador de rua. Nota-se também que há uma ilustração por cima da fotografia, o que se repete em todas as fotos; nesse caso, é um pássaro, o mesmo que aparece pela primeira vez no capítulo 1 (Lázaro), mas na cor preta (figura 6).

O capítulo 5 (Muska e Lázaro) mostra o início dessa amizade, entre o homem e o cachorro, um golden retriever inteligente, e os percalços pelos quais passaram, como morar na Cracolândia, ter rivais, escapar de revólver, esconder-se de inimigos e enfrentar marginais.  Um aspecto interessante é como a sensação angustiante de viver numa grande metrópole é expressa tanto por esses versos quanto pelas fotografias. Ayala (1997, p. 162) defende que, mesmo em casos de adaptações de histórias europeias, o leitor popular recebe as histórias “como se estivessem acontecendo em algum tempo no Nordeste, apesar das referências a locais europeus contidas no texto. Esta aclimatação não se faz apenas pela paisagem, mas principalmente pela linguagem”. Mesmo assim, nessa história em específico, somos constantemente lembrados de São Paulo, é a “cartografia social da cidade” dita acima por Aderaldo Luciano. A abertura do capítulo é esta:

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Quem quiser ler o resto do artigo acesse:

https://revistas.editora.ufcg.edu.br/index.php/r15o/article/view/7229

domingo, 12 de julho de 2026

SEMEANDO CORDEL

 








Quem decide viver de determinada arte, precisa se abrir para apreciar as demais artes para não se fechar apenas em seu mundo, pois o diálogo frequente irriga os rios de sua arte e pode tornar o seu jardim poético mais colorido. Um escritor deve frequentar o teatro, escutar música e ler outros autores para enriquecer seu vocabulário, e ter o que dizer as pessoas que investem em seu trabalho. No caso do cordel não basta apenas rimar, é necessário harmonizar para que se torne um poema cheio de encantamento e poesia. Rimar é a parte mais fácil, porém embelezar as estrofes com poesia, será o trabalho mais ardoroso a ser enfrentado.

Nestes 25 anos atuando como cordelista, percebo que a cada dia estou aprendendo algo sobre a cultura do cordel. A cada texto escrito, vem a seguinte pergunta: isto vai me conectar com as leitoras e leitores? É uma pergunta que nenhum autor tem a resposta, por isso que escrever é uma experimentação constante. Para nos conectarmos com as pessoas, um dos caminhos a seguir é o da emoção, pois ela vive a espreita e é o que realmente nos move, claro que se a emoção estiver desordenada, a razão dará o seu toque de equilíbrio.

Outra coisa que o capital fala muito é sobre a autoridade conquistada a respeito do que faz, mas esta espécie de “privilégio” será dada à medida que seus leitores forem reconhecendo seu trabalho e o tornando relevante. Muitos conquistam isto através de polêmicas, mas não sei quanto isso é bom para uma carreira. Baseado em minha experiência, digo a qualquer pessoa que está dando os passos iniciais em uma arte, que continue em frente, que semeie, mesmo que ninguém dê importância, porque não é pelo comportamento dos outros que você mudará o seu. Quem está convicto de uma coisa, basta a sua convicção, o resto é se lhe ajuda a crescer neste caminho de semeadura. Eu sigo plantando. Tenho colhido, perdido, irrigado, mas continuo semeando. Quem não desiste sairá da escassez para a fartura.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

NO SERTÕES DE MINHA SOLIDÃO

 


 Acabo de ler esta obra poética do autor Juamis Tomaz que se assina como O Peregrino da Paz. De nascimento é juazeirense, porém é cidadão de Petrolina, ambas incrustadas no chão nordestino. Possui um coração que vibra com a nossa poesia e cultura pujantes. Funcionário público dedicado e poeta apaixonado pelas pegadas do profeta Jesus de Nazaré, levará quem se aventurar a ler esta obra, ao encontro de uma poética prenha de igualdade, de amor, carregada de utopia pela construção de uma sociedade sem explorador, muito menos exploradores.

A poesia do Peregrino da Paz é um grito que ecoa a quem está se acostumando com a indiferença, a ser guiado pelo hedonismo, onde o prazer pelo prazer tem se tornado mais importante do que se estender a mão para quem sofre. Um poeta corajoso que não tem medo de criticar os padrões doentios estabelecidos neste mundo, de denunciar a corrupção que rouba o sonho de milhões. A poética de Juamis é ao mesmo tempo denúncia e bálsamo, que sacode os que dormem em berço esplêndido, e não veem o sofrimento daqueles e daquelas que caem ao seu lado, jogados pelo capitalismo selvagem com sua ânsia desenfreada de lucro.

NOS SERTÕES DE MINHA SOLIDÃO é um convite ao mergulho em pensamentos e na luta pelo pão para quem tem fome e água para quem tem sede. É chamado singular a sermos pontes onde os muros foram erguidos. É um grito que ecoa da divisa da Bahia e Pernambuco para o resto do Brasil, que olhe os trabalhadoras e trabalhadores que ainda vivem espoliadas por uma escala 6x1 que o Congresso teima em não resolver. Que a poesia vinda das fímbrias do coração Do Peregrino da Paz possa calar fundo em nossa alma e nos impelir a arregaçar as mangas na luta pela justiça e fraternidade.

domingo, 5 de julho de 2026

O MISTERIOSO DRAGÃO DA ENCRUZILHADA

 


O não nascido Varneci Nascimento, que se batizou nas ruas com o sobrenome Cordel, é extremamente irritante para quem não gosta da literatura autêntica brasileira.

Sim! Vai ser nesse tom que vou falar dele. Com a auto estima que tantos estranham quando falamos da nossa arte.

O kit de invisibilidade não funcionou mais uma vez. De vez em quando eles deixam o filtro dos sonhos de alguns dos nossos funcionar.

A altura dos seus textos, são para poucos inocentes, mas não vamos falar mais de medidas por aqui. O autor em questão tem síndrome do túnel do carpo, porque gosta de rascunhar no papel, coisa da década passada pelo jeito.

Se você não conhece essa autarquia das palavras, saiba que sempre está trajado de camiseta leve e com algo estampado do cordel, chega até a irritar.

Não fosse o bastante, prefere usar chinelo, gosta de um pirão, e tem saudade dos bifes que sua mãe fazia.

A meta desse escrevinhador é que sua biblioteca fosse invadida, seus livros contaminados, pois os panfletos cresceram enquanto você dormia.

O Brasil é grande, mas não conhece sua grandeza.

Varneci é um invasor de cérebros, sua escrita conduz cadáveres, sua cólera é permanente e não vai ser difícil ver sua resistência em estações de metrô, em praças públicas, muitas vezes aglomerado com os seus.

Varneci, tem um defeito de fabricação, o S que faltou no seu primeiro nome, múltiplo para poder resistir a invisibilidade, nunca foi um. O plural é uma palavra tatuada em seu coração.

Aceitar dói muito menos, mas com os erros, entre eventos onde lhe cortavam o tempo, ou o estigmatizavam, Varneci foi aprendendo até chegar ao dobro dele mesmo. Um talento só nunca foi o bastante para nossa pequena gente grande, colecionadora de dinheiro

Não ler, muitas vezes nos faz sentir menos livres, mas também não sabemos o que direito é a tal liberdade, até folhear um cordel.

Petulante, salta de assuntos que você espera. Sim! Você espera algo de tudo. Mas dele só tem surpresa quando a rima finaliza.

Varneci Cordel, tira das eras dos dragões as questões climáticas, tudo é uma desculpa para corromper o HD que o sistema definiu para os leitores.

 

Ferréz - Oceano Atlântico, abril de 2024.

O restante está no livro

saiba mais em:

https://varnecicordel-com-br.lojaintegrada.com.br/o-misterioso-dragao-da-encruzilhada

sexta-feira, 3 de julho de 2026

LIVRO, INFELIZMENTE ATUAL

 


 

Quando publiquei este livro achei que logo deixaria de ser atual, mas infelizmente quatro anos depois, seguimos lutando para espantar o assombro que ainda nos ameaça. A força da maldade é poderosa, o extremismo deste grupo continua cada vez pior, ainda que seu líder esteja preso. A coisa tem se agravado tanto, ao ponto do Brasil ser punido com o tarifaço absurdo a pedido deles, o filhote de cobra, no lugar do pai, pediu que o Brasil fosse bombardeado, que nossa nação seja punida. E milhares acreditando que isto é patriotismo.

Saímos do mapa da fome, o país voltou a ser respeitado no cenário internacional, mas tem milhares que gostam de miséria e de lamber as botas do imperialismo estadunidense. São entreguistas, não sabem o que é soberania, enfim, a canalhice nos ameaça, e por isso, infelizmente meu livro, ilustrado com as brilhantes charges de Paulo Batista continua atual.

Uma obra com quase duzentas páginas que aborda vários aspectos da tragédia que vivemos durante o desgoverno passado, todavia não consegue esgotar, porque o mal tem um poder devastador. Precisamos continuar resistindo, defendendo a democracia, a soberania, a inclusão, a educação, nossas terras raras, nosso petróleo, enfim protegendo nosso país. Para isso, a literatura, a poesia são excelentes companheiros. Vá atrás, apoie e divulgue esta e outras obras que nos armam para enfrentar toda espécie de retrocesso, para que continuemos com o cordel, ESPANTANDO O ASSOMBRO BOLSONARENTO.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

DECOLONIALIDADE O QUE É?

 



Em um mundo cheio de polarizações políticas e ideológicas, é interessante aprendermos a pensar, guiados pelos bons livros, mas sem perder o velho e bom costume de criticar tudo aquilo que é posto como verdade, sobretudo quando estas supostas verdades estão enfeitadas pelos interesses escusos do mercado e do imperialismo. Fomos colonizados pela Europa, e demorou para conseguirmos a liberdade política, como está demorando a conseguirmos a liberdade no pensamento, porque nada pior e mais prejudicial do que um conhecimento colonizado, porém infelizmente é o que temos visto nos últimos tempos.

O império estadunidense está cada vez mais querendo impor a canga no pescoço de muitos países, e isto acontece por meio do conhecimento, do idioma imposto, da moeda que dominava o comércio mundial e que felizmente vem perdendo força. Tomar consciência disso, requer levantar a cabeça e se colocar contra aquilo que está posto como verdade. Quem foi que disse que temos que viver subjugado ao desejo de ninguém? Quem foi que disse que a América Latina é o quintal do império estadunidense? Quem foi que disse que o nosso petróleo tem que ser roubado e entregue aos estadunidenses? Eles mesmos disseram, porém não somos obrigados a obedecer.

Ser uma pessoa que pensa a decolonialidade é se colocar no seu lugar de agente da história e saber que a honra é inegociável, que ninguém, por mais forte que seja militarmente falando, vai dominar a sua cabeça. Alimentar essa convicção é algo que precisamos fazer conscientemente. No que escrevo sempre aponto nesta direção. Mas aí algum entreguista pode me dizer: do que adianta se uma andorinha sozinha não faz verão? Adianta sim, porque como dizia o indiano Mahatma Ghandi: “eles podem até me matar, e aí terão o meu corpo, mas não a minha obediência.”

Por essa razão escrevi este cordel sobre decolonialidade, precisamos repensar o modelo de sociedade que queremos, se soberana ou subserviente.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

O AMOR VENCE O RACISMO?

 


Escrever e viver de literatura é uma tarefa prazerosa, mas árdua, sobretudo se depende dela para pagar as contas. Nestes 25 anos dedicados ao cordel, não posso reclamar de nada, porque só tenho a celebrar, mais de 100 obras publicadas, livros comprados pelo Ministério da Educação, premiado duas vezes pelo Ministério da Cultura, premiado como mestre da cultura, livros adotados pela prefeitura de São Paulo e Rio de Janeiro, escolas particulares, 300 mil exemplares vendidos, enfim são várias conquistas, mas ainda assim, às vezes, é complicado financeiramente.

Infelizmente “boa parte dos brasileiros não gostam de artista, gostam de famoso” isto quer dizer que se você não estiver na mídia, estará fora de tudo o que se faz em torno da arte que produz. E se fizer uma literatura que toca em coisas espinhosas, e aqui é meu caso, poderá entrar nos cortes, porque determinado tema incomoda. Quando publiquei este livro sabia do risco que corria, mas precisamos ser coerentes, ou do contrário, cairemos no velho mal da hipocrisia. Ou nossa literatura mexe em feridas abertas, ou não veremos mudanças, e o racismo que permanece estruturado continuará excluindo, os racistas continuarão na posição de privilegiados e quem o sofre o racismo, sendo subalternizado, como acontece há 500 anos neste país. Se ler é um ato político, a literatura é o alimento do processo.

Veja abaixo as primeiras estrofes deste romance.

 

Abram corações e mentes,

Dignatários leitores.

Apreciem este romance,

Entendam seus dissabores.

Por que houve escravizados,

Oprimidos por senhores?

 

Busquei em livros e sites,

Untados pelo cinismo,

No fel de arrogância branca

Refleti sobre esse abismo

Que me leva a perguntar:

O amor vence o racismo?

 

Quem outorgou para alguns

Este execrável direito

De se julgarem maiores

Baseados num conceito?

Para tratar um retinto

Na base do preconceito?

 

Conceberam tantas formas

De provocar desalento,

Patrocinar injustiças,

Suscitar o sofrimento.

À demência aos praticantes,

Às vítimas, constrangimento.

 

Mais informações

https://varnecicordel-com-br.lojaintegrada.com.br/o-amor-vence-o-racismo

domingo, 21 de junho de 2026

HISTÓRIAS REAIS, LOUCURAS DE AMOR

 


















Ontem no Centro de Referência da Dança aconteceu mais um encontro de O poder do conto organizado pela poetisa Cleusa Santo que maravilhosamente coordena o grupo composto pela turma da melhor idade. Este evento bimestral reúne contadoras e contadores de história, além de poetas e vários artistas, com uma plateia sempre dinâmica e ávida por boas histórias.

Cleusa Santo faz um trabalho incrível e com certeza preenche a vida deste grupo que caminha com ela há vários anos. Cada evento é uma surpresa que nos enche de encantamento porque o Poder do Conto, realmente tem o poder de nos impelir a perceber que o mundo é um espetáculo cheio de singeleza. Quem abre o coração, pode preencher a alma com o melhor que o outro, a sua maneira, tem a nos oferecer.

Dentro deste evento, sempre acontece o lançamento de um livro, de preferência de cordel e ontem foi a vez da poeta Edimaria nos oferecer mais uma obra de sua lavra poética: HISTÓRIAS REAIS, LOUCURAS DE AMOR, no qual conta várias histórias surpreendentes, através deste sentimento que move o mundo. Edimaria é destas poetas encantadas com a beleza salutar que o amor nos proporciona e como empurra as pessoas a seguirem em frente, mesmo que determinado amor não se concretize, terá valido a pena amar. Viva o amor, viva a poesia enfeitada pelos versos do cordel.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

PROSA E POESIA

 





 Recentemente tive a oportunidade de conhecer duas obras da autora e ilustradora @liuolivinaart que é múltipla porque escreve e ilustra, é escritora e poeta, quatro qualidade difíceis de reunir numa mesma pessoa. Ambos os livros publicados pela @editoraquatrocantos que tem livros de altíssima qualidade e com um cuidado impecável em cada edição.

O livro Ciranda em Aruanda que já vinha chamando a atenção das leitoras e leitores ano passado, ficou ainda mais conhecido por um episódio lamentável de censura e intimidação em uma escola da capital paulista, que foi invadida pela polícia, chamada por um pai que se sentiu incomodado pela temática do livro. O que não causa surpresa, graças ao racismo estrutural deste país, sobretudo com as religiões de matrizes africanas.

Em @afeira no Pacaembu Liu Olivina lançou o livro Um Biquinho de Prosa, escrito e ilustrado por ela. A obra discorre com uma singeleza incomparável, as belezas que ela contempla em sua casa, vizinha a Mata Atlântica no litoral paulista. Fala de pássaros como fala de seu filho Martim, que tem nome do pássaro Martim-Pescador, que segundo a autora foi “o primeiro pássaro a falar com ela”. As ilustrações são de uma beleza salutar, nos envolve na leitura e nos faz sentir o balanço das ondas do mar naquele movimento indelével do farfalhar das águas indo e voltando.

Liu realmente nos enternece com tanta beleza literária. Numa época em que tudo é artificial, contemplamos um livro escrito e desenhado a mão, nos empurra para um mundo cheio de magia, e nos mostra que nem tudo precisa ser digital para nos enlevar. Neste Um Biquinho de Prosa, você encontrará um bicão de poesia. Vá atrás destas obras que vão suavizar sua existência.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

CEM MIL EXEMPLARES VENDIDOS



Quem vive de arte, também busca as formas para que seu trabalho chegue mais longe. É uma tarefa ardorosa encontrar essas possibilidades porque precisa unir um trabalho de qualidade com o gosto das pessoas, que sempre varia de acordo com cada personalidade. Agradar a um coletivo é uma tarefa complexa, tendo em vista que terá de unir a sensibilidade de ambos.

Na literatura é algo ainda mais difícil para conectar as leitoras e leitores com aquilo que você escreveu. Felizmente este meu livro A Branca de Neve publicado pela @pandabooks caiu no gosto de milhares delas porque chegou a impressionante marca de cem mil exemplares, o que me enche de gosto e gratidão por todos os profissionais envolvidos neste processo. As lindas ilustrações de @andreaebert contribuíram imensamente para o sucesso desta obra.

Conta o fato de ser um conto conhecido e de ter sido ornado pela potência que é o gênero literário cordel, uma forma poética que enche o nosso Brasil de orgulho. Quem escreve deste jeito, deve gratidão ao grande paraibano Leandro Gomes de Barros que com seu estro criativo disseminou essa forma poética pelo Recife, depois Pernambuco e assim o cordel foi se enraizando pelo Nordeste pelo restante do Brasil.

A Branca de Neve em cordel é um livro que se consolida e encanta as pessoas para marcar aqueles e aquelas que amam a literatura brasileira.


sexta-feira, 12 de junho de 2026

CORDEL NO SESI DE MARÍLIA

 








A convite da professora @liliantalmeli e acolhido pela bibliotecária Carol Médice, tive a oportunidade de falar sobre o Cordel Brasileiro, para duas turmas do quinto ano A e B do @sesisp.marilia, que fica no interior de São Paulo. As turmas estavam acompanhadas pela professora Mirelle e pelo professor Guilherme, a quem agradeço a acolhida de ambos. Estive no Sesi de Marília há mais de 10 anos e nunca mais perdi o contato com a professora Lílian, por isso foi articulado este encontro com estas turmas para essa data.

Diferente dos encontros que acontecem em torno do cordel, que normalmente são palestras ou oficinas, hoje fui sabatinado pelos alunos das duas turmas que estão fazendo um trabalho a respeito deste gênero literário e tiveram a oportunidade de tirar dúvidas sobre sua produção, como conhecer um pouco mais a respeito do meu trabalho. As perguntas foram impressionantes, ora provocativas, ora desconcertantes num sentido de nos deixar às vezes até sem respostas.

É salutar participar de um encontro tão proveitoso, com aqueles e aquelas que serão o futuro do nosso país. É importante plantarmos boas sementes se quisermos colher bons frutos. Participar de momentos assim é engrandecedor para a vida e a carreira de qualquer autor, porque neste tipo de debate, conseguimos refletir não apenas sobre a nossa produção, mas sobre aquilo que nos inspira a continuar na semeadora da palavra. O cordel tem muito a oferecer para todas as gerações, porém lançar suas sementes no terreno fértil de quem futuramente estará à frente das instituições de nosso país, é algo que precisamos fazer continuamente. Viva a literatura brasileira e todas as pessoas que a transmitem a todas as gerações.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

PRESENÇA DO CORDEL N’AFEIRA DO LIVRO DO PACAEMBU

 












 Aconteceu de 30 de maio a 07 de junho @afeira do Livro do Pacaembu, que tem se consolidado como um dos espaços mais destacados para a promoção do livro e do saber na cidade de São Paulo. Durante nove dias a Praça Charles Miller, recanto consagrado ao futebol, se torna o lugar do saber e da cultura, onde a palavra desfila através dos livros das mais diversas autoras e autores que formam o mercado editorial brasileiro.

Naquela arena passam autores/as ainda anônimos, em busca de um espaço, aos mais destacados. Ano após ano, vemos uma literatura pujante e vivaz que mexe com a cabeça dos leitores e leitoras, ávidos por coisa boa.

Neste lugar estava eu pelo segundo ano consecutivo, na Tenda da @camaraperifericadolivro que mostra a força e a potência do cordel e da Literatura Periférica nas feiras e bienais pelo Brasil afora. A Câmara Periférica do Livro abriga em seu guarda-chuva 39 editoras periféricas com catálogos diversos, mulheres poderosas e potentes que oferecem a literatura brasileira, um mundo cheio de encanto, mas em muitas vezes regados pelas lágrimas, causadas pelo machismo, misoginia e patriarcado.

Nesta seara, o cordel segue pujante e, por isso várias editoras trazem em seu catálogo a força do único gênero literário brasileiro reconhecido como patrimônio imaterial da nossa cultura. É preciso caminharmos cada vez mais para que essa forma poética ocupe os espaços e possa fazer parte dos debates que esta importante feira promove. É preciso integrá-lo ao todo da nossa literatura, os muros precisam ser derrubados.