sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O CAMINHO DOLOROSO DA ARTE

 




Viver de arte é uma das escolhas difíceis de fazer, pois sua concretização costuma ser uma batalha árdua, afinal na cabeça de todo mundo, quem escolhe este caminho, decidiu deliberadamente se tornar malandro, detesta trabalhar e vive encostado em outras pessoas. É desrespeitado desde o começo, começam a chamá-lo para se apresentar de graça, dando a desculpa de ser uma oportunidade para mostrar seu trabalho, os desrespeitosos chegam ao ponto de dizer: “você não está fazendo nada mesmo, se apresente em meu evento, estou lhe dando esta oportunidade”.

Nunca vi ninguém chamar o pedreiro, o advogado, o professor, o médico, o dentista, o engenheiro, para trabalhar gratuitamente, porém se for cantor, tocador, escritor, palestrante, poeta, em começo de carreira, receberá os convites mais estapafúrdios. Sem contar os livros que pedem, para depois não ler. É preciso ser persistente para seguir acreditando em seu potencial e não desistir. O compositor nem existe no senso comum, dificilmente alguém sabe o nome dos compositores das músicas de maiores sucessos. O desrespeito com os trabalhadores da arte é algo surreal, principalmente se não forem famosos.

Este ano, no mês de abril completarei um quartel de século vivendo como escritor, me considero um vencedor, contudo passei por cada uma, que qualquer ser humano fraco e sem objetivo claro, teria desistido nos primeiros anos de profissão. Vou citar apenas dois exemplos: certa vez, tive meu tempo cortado em um evento em São Paulo para ofertar a vez a um figurão. Quando chegou a vez dele falar, desagradou tanto, que tive de voltar ao palco para salvar o evento. Em outra oportunidade em um estado do sudeste, fui contratado com outro figurão da literatura, que estava na mídia. No término do evento vários professores e professoras disseram que a minha palestra foi melhor que a do outro, apesar disso meu cachê continuou sendo menos. Este tipo de coisa desmotiva qualquer ser humano que não tem convicção daquilo que quer. Portanto quem vai entrar para o mundo da arte, aprenda a se impor, porque do contrário estará condenado ao fracasso.

 

AS PERDAS E GANHOS NO CAMINHO...

 





Perto de completar meio século de vida, posso celebrar os ganhos como refletir sobre as perdas na caminhada, porque, se quem luta é inevitável ganhar, com o passar do tempo é também comum perder. E não precisamos nos queixar das perdas, elas são inerentes à existência. Este peregrinar pela Terra é uma rede tecida com vários novelos que vão se misturando numa perfeita simbiose, que podem resultar em coisas negativas ou positivas, a depender das escolhas feitas na viagem.

Todos os anos na Bahia visito algumas pessoas entre familiares e amigos, que tiveram a felicidade de envelhecer. Nestes meus 28 anos morando fora daqui perdi diversas pessoas caras ao meu afeto. Dos irmãos de mamãe, além dela, já morreram a maior parte dos irmãos e aqui resta apenas tia Dete, com 92 anos, mulher forte, cheia de saúde e de uma memória invejável. Seja por telefone ou pessoalmente a conversa com ela é fluida, o papo transcorre narrando coisas que vão da sua criancice até a vida adulta. Muitas coisas da família de mamãe, fiquei sabendo através dela.

Mamãe partiu com 77 anos e hoje vejo em tia Dete uma cópia fiel da fisionomia dela. Nesta mulher cheia de ternura, nunca ouvi uma má palavra da sua boca, tampouco guardou magoa nem rancor de ninguém, mesmo as pessoas que lhe causaram ofensas e humilhações, ela jamais disse nada que ofendesse. Sempre cultivou a espiritualidade e todas as vezes que nos encontramos, a gargalhada corre solta porque ela me conta cada casos fabulosos para sorrirmos. Cada ano que lhe encontro compenso as perdas que já tive em relação a família de mamãe. Ontem visitei-a mais uma vez com minha prima Gileide e seu esposo Celso. Tia Dete segue vendendo saúde e lucidez.