domingo, 25 de janeiro de 2026

CORDEL PERSEGUIDO EM SÃO PAULO







Hoje no aniversário da Pauliceia Desvairada de 472 anos, o cordel era para estar na Avenida Paulista, embelezando ainda mais a grandeza desta megalópole, porém nas duas vezes que fomos festejar seu aniversário, com a presença de diversos poetas e poetisas, fomos de maneira abrupta e violenta abordados e instados a retirar o nosso material, sob pena de ser recolhido e, se falou até de condução para a delegacia.

A primeira vez aconteceu em janeiro de 2017, quando João Gomes de Sá e eu fomos mostrar nosso trabalho na avenida, que domingo se fecha para os carros e se abre para a cultura, ao menos deveria ser, porque para nós, não foi assim, fomos praticamente escorraçados da Paulista pela Guarda Civil Metropolitana. Com medo de sermos ameaçados novamente, buscamos os meios legais de conseguirmos uma autorização para o cordel, apesar de existir uma lei que nos autoriza, ainda assim nunca fomos autorizados.

A segunda abordagem aconteceu em 25 de janeiro de 2024, quando vários poetas e poetisas estavam na frente do Sesc Avenida Paulista e fomos abordados mais uma vez, agora pela Polícia Militar, para retirarmos imediatamente os cordéis, pois segundo eles estavam atrapalhando a via, o que não é verdade, e senão fosse o @sescavenidapaulista que interveio ao nosso favor, e autorizou a praticamente colocarmos as nossas banquinhas dentro de sua área, teríamos todo o material apreendido e, talvez fossemos conduzidos a delegacia, porque um policial ainda perguntou se nós estávamos resistindo a obedecer? Mais uma vez procuramos as vias legais e ficamos sem nenhuma resposta, embora tenha havido uma reunião na subprefeitura. Agora na festa da cidade, ficamos de longe, sem que o cordel participe desta grandiosa comemoração. Perde a cultura, perde a cidade, perde a festa.

 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

FRANKLIN MAXADO: O POETA TRANSGRESSOR

 












 

Hoje tive a felicidade, de juntamente com outros poetas, prestigiar o baluarte Franklin Maxado, o baiano de Feira de Santana, jornalista e advogado, que no auto dos seus oitenta anos, carrega uma carga histórica de militância na defesa do cordel. Foi semeador deste gênero literário nos heroicos anos 70, quando vendendo seus folhetos pelas praças de São Paulo, sofria os achaques da Polícia, viu de perto os grilhões da ditadura, por ser um literato de pena afiada, capaz de fazer críticas ácidas através de suas metáforas poéticas.

Franklin Maxado sempre se arriscou pelo que acredita. Se hoje colhemos frutos de cordel na Pauliceia Desvairada, devemos também a semeadura desta autarquia abnegada. Na década de oitenta o poeta Santa Helena se candidatou para uma vaga na Academia Brasileira de Letras e hoje Franklin nos contou, que para ser ainda mais arrojado, se lançou a presidente em plena luta pelas Diretas Já. A notícia se espalhou porque Carlos Drummond de Andrade fez um artigo que saiu nos principais jornais do país. Ainda fez dois comícios, porque as pessoas começaram a levar a sério, começou a chegar muitos nordestinos em São Paulo pedindo emprego ao ilustre candidato. Na época este fato inusitado chamou atenção. Para se ver livre, declarou apoio a Tancredo Neves e encerrou a campanha.

Versátil nos temas, @franklinmaxado escreve sobre os mais variados assuntos, com títulos que chamam a atenção do leitor. Hoje lançou na @livrariadasperdizes POR QUE NÃO LANÇAR O “DIA DA MESTIÇAGEM?” CACIMBA MATAVA A SEDE NA SELVA DE CIMENTO COM DOUTOR MOZART e SÃO PAULO É A BABEL DO FUTURO TESTAMENTO. Com o seu jeito irreverente tem contribuído imensamente para divulgação do cordel. Tivemos o prazer de encontrar neste evento maravilhoso os poetas @cacalopes @poetamoreiradeacopiara @ronnaldodeandradespina @josevejabemdapaulista @graziela_barduco e uma plateia linda que foi prestigiá-lo.

sábado, 17 de janeiro de 2026

A HERANÇA POÉTICA

 


Olhando a tez do seu rosto

Eu fico até confundido

Porque as pessoas dizem

Que igual fui esculpido.

As carquilhas de papai

Mostram que meu rosto vai

Ficar muito parecido.


Trouxe em meu DNA 

Uma série de herança

Que o tempo trabalhou

Para me dar confiança.

Outra parte eu lapidei

E com isto conquistei

Projetar uma mudança.


O cara que papai tem

Eu já projeto na minha

E quem conhece um de nós

Simplesmente se advinha

Que na condição de filho

Herdei de papai um brilho

Que comigo hoje caminha.


Ser poeta e tocar

Cavaquinho e violão

São marcas que ele imprimiu 

Desde a minha geração

E vão caminhar comigo

Para habitar meu jazigo

Na derradeira estação.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

O OFÍCIO DA ESCRITA

 


Quando abracei o ofício de escrita, não sabia em qual caminho estava entrando, afinal tudo que estamos começando é desconhecido e à medida que vamos mergulhando no fazer, descortinamos os mistérios que se apresentam à nossa frente. Fui tomando consciência que não dominava ainda as técnicas de cordel, e com isso estudando para compreender tudo que envolve este fazer poético.

A técnica do fazer cordelístico é complexa, mas é possível dominá-la. Todavia é preciso ter humildade para pedir que os outros poetas e poetisas leiam seu escrito para que possam perceber as falhas que não conseguimos enxergar. Isto não é demérito nenhum, ao contrário, prova a sua capacidade de reconhecer seus limites. A falha faz parte da vida de qualquer ser humano. É a prática constante que vai nos esmerando, daí devemos persistir na construção poética, que gradativamente a produção vai melhorando, agora tudo isso acompanhado com a leitura para o enriquecimento de vocabulário e, assim variar nas rimas, para que sua escrita seja cada vez mais embelezada e passe a ser desejada pelos leitores e leitoras.

É preciso se respeitar como profissional para que as pessoas olhem de forma também diferenciada. As pessoas percebem quando você cuida do seu ofício com zelo e carinho. Quando há respeito na produção da obra, há respeito por parte dos leitores e leitoras.

 

sábado, 10 de janeiro de 2026

VI PAPAI RECLAMANDO DA SECURA...

 


Papai sempre chamou pela janela

Uma vaca bonita e parideira

Escutando a voz vinha de carreira

Atender apressada na cancela.

Certo dia gritou, mas nada dela

Não berrou, nem correu na direção

Procurou-a, encontrou-a sobre o chão

Estirada, já morta a criatura

Vi papai reclamando da secura

Que sequestra a beleza do sertão.

 

Escrevi este poema em dezembro de 2023 sobre o período que ficou sem chover aqui no Nordeste da Bahia, e fez aumentar a dificuldade em relação a criação de animais, devido à falta de comida. Nos dias atuais existem muitas possibilidades de convivência com a estiagem, o que ainda falta é as pessoas colocarem os conhecimentos em prática. Conviver com o clima seco e quente não é novidade em nenhum canto, porque com a ajuda da ciência, tudo isso foi superado, tendo em vista ser possível se adequar e superar a escassez de chuva.

Apesar de se conhecer o caminho, ainda existe resistência em criar os animais adequados a esta região. A secura me impulsionou a escrever estas estrofes em decassílabo, pois como disse o poeta: “a poesia é tirar de onde não tem e colocar onde não cabe.” Este folheto traz dois poemas a partir de motes. Além deste que dá título ao cordel, o segundo é: Sua visão de pobreza / Há muito foi superada. Quem conhece essa literatura genuinamente brasileira, sabe que ela nunca ficou sem opinar sobre as questões importantes do país. A leitura é o caminho mais seguro em vista de um aprendizado que proporcione saberes.

 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

ACORDEM, IMBECILIZADOS

 


É triste vermos tanta imbecilização, e parece que o veneno da idiotia se espalha feito rastilho de pólvora. Os seres que não pensam e engolem qualquer discurso sem analisar nada posto pelos estadunidenses quando se dizem preocupados com a democracia em algum canto do mundo. Os Estados Unidos nunca tiveram o menor pudor de se aliar com os piores ditadores, desde que estes se dispusessem a se tornar seus serviçais e aceitarem a entregar as riquezas de seus países.

O império se julga a polícia do planeta, erigiu e manteve ditadores, usaram-nos até quando não serviram mais ao imperialismo, começaram a minar o poder que ele mesmo lhe concedeu. Levaram Saddam Hussein ao cargo de presidente do Iraque, depois inventaram as armas de destruição em massa e lhe enforcaram. Colocaram os talibãs no poder no Afeganistão, treinaram Bin Laden, em seguida o mataram. Apoiaram Somoza na Nicarágua; Reza Pahlavi no Irã; Suharto na Indonésia; Mobutu no Zaire; Bashar al-Assad na Síria e mantem estreita relação com o ditador da Arábia Saudita Mohammad bin Salman. Os que aplaudem sua tirania nunca estranharam. Exceto com o da Arábia Saudita, descartou todos como lixo, por não servirem mais ao interesse do império.

Temos muitas críticas a Nicolás Maduro, mas o sequestro dele não tem nada a ver com democracia, está umbilicalmente ligado ao Petróleo que este país tem produz em grande quantidade. Se estivesse sido entregue aos Estados Unidos, Maduro poderia matar o povo da Venezuela todinho que nem se importariam, mas o regime venezuelano é nacionalista aí começaram a perseguição: primeiro a difamação de que era chefe de um cartel, depois a morte de inocentes no mar do Caribe, em seguida o sequestro dele e num instante abandonaram o discurso de cartel de drogas. A população mundial já tinha bebido o veneno da mentira e os incautos acreditaram que era por causa de democracia. As pessoas precisam acordar e parar de engolir tudo que a imprensa coloca como verdade. Nunca foi sobre democracia e sempre sobre roubo de petróleo, terras raras e outras riquezas mais.

 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

NÃO É SÓ FAMA NEM DINHEIRO

 


“Muitos costumam dizer que a vida é dura para quem é mole.” Não sei se essa máxima é tão verdadeira, mas em todo caso, expus aqui para ao menos nos servir de inspiração. Ninguém é obrigado a ser forte o tempo inteiro, lutar tanto por uma coisa, sentir que é escolha visceral, ainda assim não consegue, por mais que batalhe ardorosamente. Para os que nascem em berço de ouro, chegam ao mundo com o caminho aplainado, todavia as camadas mais pobres vivem padecendo do nascer ao morrer, são vítimas constantes tanto da sociedade como injustiçados pelas instituições que deveriam protegê-los.

Permanecer firme em um foco, é uma façanha digna de admiração porque quando a vida adulta chega, precisa prover o próprio sustento e insistir em algo que o retorno financeiro demore, se torna complicado para um adulto, sobretudo se escolher a área da cultura, se o dinheiro não vier logo, será chamado de preguiçoso, vagabundo, encostado, malando sem futuro que não quer nada com nada. Se der certo e o resultado financeiro chegar com rapidez, será apelidado de gênio, de talentoso, de sabido, e todo mundo finge que a vida inteira acreditou e torceu pelo sucesso de sua carreira artística.

Há 25 anos vivo de literatura, tenho milhares de livros comprados pela maior prefeitura do país, pelo Ministério da Educação distribuídos pelo Brasil inteiro. Fui premiado duas vezes pelo Ministério da Cultura, ganhei vários prêmios nacionais em concursos de cordel, há dois recebi o título e prêmio e título de mestre da cultura pela Prefeitura de São Paulo. Tudo isso são tijolos colocados no edifício de uma carreira construída com dedicação, apoio de tantas parcerias e humildade. Afinal não adianta construir um edifício suntuoso sem ter bases sólidas em que seja sustentado. Ser famoso pelo trabalho é interessante, mas as vezes, quando a nuvem da fama passa, se o trabalho não tiver raízes ele também se dissipa. Portanto invista sempre em sua formação se quiser permanecer relevante no meio em que atua.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O CAMINHO DOLOROSO DA ARTE

 




Viver de arte é uma das escolhas difíceis de fazer, pois sua concretização costuma ser uma batalha árdua, afinal na cabeça de todo mundo, quem escolhe este caminho, decidiu deliberadamente se tornar malandro, detesta trabalhar e vive encostado em outras pessoas. É desrespeitado desde o começo, começam a chamá-lo para se apresentar de graça, dando a desculpa de ser uma oportunidade para mostrar seu trabalho, os desrespeitosos chegam ao ponto de dizer: “você não está fazendo nada mesmo, se apresente em meu evento, estou lhe dando esta oportunidade”.

Nunca vi ninguém chamar o pedreiro, o advogado, o professor, o médico, o dentista, o engenheiro, para trabalhar gratuitamente, porém se for cantor, tocador, escritor, palestrante, poeta, em começo de carreira, receberá os convites mais estapafúrdios. Sem contar os livros que pedem, para depois não ler. É preciso ser persistente para seguir acreditando em seu potencial e não desistir. O compositor nem existe no senso comum, dificilmente alguém sabe o nome dos compositores das músicas de maiores sucessos. O desrespeito com os trabalhadores da arte é algo surreal, principalmente se não forem famosos.

Este ano, no mês de abril completarei um quartel de século vivendo como escritor, me considero um vencedor, contudo passei por cada uma, que qualquer ser humano fraco e sem objetivo claro, teria desistido nos primeiros anos de profissão. Vou citar apenas dois exemplos: certa vez, tive meu tempo cortado em um evento em São Paulo para ofertar a vez a um figurão. Quando chegou a vez dele falar, desagradou tanto, que tive de voltar ao palco para salvar o evento. Em outra oportunidade em um estado do sudeste, fui contratado com outro figurão da literatura, que estava na mídia. No término do evento vários professores e professoras disseram que a minha palestra foi melhor que a do outro, apesar disso meu cachê continuou sendo menos. Este tipo de coisa desmotiva qualquer ser humano que não tem convicção daquilo que quer. Portanto quem vai entrar para o mundo da arte, aprenda a se impor, porque do contrário estará condenado ao fracasso.

 

AS PERDAS E GANHOS NO CAMINHO...

 





Perto de completar meio século de vida, posso celebrar os ganhos como refletir sobre as perdas na caminhada, porque, se quem luta é inevitável ganhar, com o passar do tempo é também comum perder. E não precisamos nos queixar das perdas, elas são inerentes à existência. Este peregrinar pela Terra é uma rede tecida com vários novelos que vão se misturando numa perfeita simbiose, que podem resultar em coisas negativas ou positivas, a depender das escolhas feitas na viagem.

Todos os anos na Bahia visito algumas pessoas entre familiares e amigos, que tiveram a felicidade de envelhecer. Nestes meus 28 anos morando fora daqui perdi diversas pessoas caras ao meu afeto. Dos irmãos de mamãe, além dela, já morreram a maior parte dos irmãos e aqui resta apenas tia Dete, com 92 anos, mulher forte, cheia de saúde e de uma memória invejável. Seja por telefone ou pessoalmente a conversa com ela é fluida, o papo transcorre narrando coisas que vão da sua criancice até a vida adulta. Muitas coisas da família de mamãe, fiquei sabendo através dela.

Mamãe partiu com 77 anos e hoje vejo em tia Dete uma cópia fiel da fisionomia dela. Nesta mulher cheia de ternura, nunca ouvi uma má palavra da sua boca, tampouco guardou magoa nem rancor de ninguém, mesmo as pessoas que lhe causaram ofensas e humilhações, ela jamais disse nada que ofendesse. Sempre cultivou a espiritualidade e todas as vezes que nos encontramos, a gargalhada corre solta porque ela me conta cada casos fabulosos para sorrirmos. Cada ano que lhe encontro compenso as perdas que já tive em relação a família de mamãe. Ontem visitei-a mais uma vez com minha prima Gileide e seu esposo Celso. Tia Dete segue vendendo saúde e lucidez.